Se você vive de infoproduto, curso, mentoria, comunidade ou lançamento, provavelmente já viu dois tipos de vídeo sobre a reforma tributária circulando por aí.
O primeiro grita que você vai pagar quase 30% de imposto e que isso pode quebrar o seu negócio. O segundo diz que nada vai mudar, que é frescura, que todo mundo está exagerando.
Os dois estão errados. E o problema com os dois é que nenhum explica o que de fato já dá para saber — e o que é que nem o próprio governo sabe ainda.
É exatamente isso que este artigo vai te mostrar.
A Alíquota que Todo Mundo Cita — Mas que Ainda Não Existe
A reforma tributária unifica cinco impostos em dois. Saem PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS. Entram CBS (federal) e IBS (estadual e municipal). Juntos, eles formam o que se chama de IVA — Imposto sobre Valor Agregado.
E qual é a alíquota desses impostos novos? Aqui começa o problema.
A estimativa que o próprio governo divulgou coloca esse imposto somado em torno de 26,5% a 28% — o que, se confirmado, seria um dos maiores impostos sobre consumo do mundo. Mas o próprio secretário da Receita Federal já declarou publicamente que seria arriscado divulgar a alíquota oficial da CBS antes das definições finais. Ou seja: nem o governo quer cravar o número ainda.
Por quê? Porque há uma disputa gigante em andamento. Cada setor que consegue um desconto ou regime especial empurra a alíquota dos outros para cima. Existem vozes no debate defendendo que esse imposto poderia ficar bem mais baixo — perto de 20% — se o governo cortasse a montanha de exceções que foram criadas.
E adivinha quem normalmente fica sem desconto e sustenta a conta cheia? O prestador de serviço. Você.
A primeira coisa que você precisa levar daqui: não tome nenhuma decisão desesperada baseada num número que ainda não foi confirmado. Mas também não relaxe achando que o caminho ainda não está definido. O que você faz agora é projetar cenários — deixando em branco na planilha o campo que ainda não tem número oficial.
A Mudança que Realmente Importa — e que Quase Ninguém Explica Direito
O tamanho da alíquota é menos importante do que a lógica de como ela é calculada. E é aqui que está o ponto que muda tudo para o infoprodutor.
Hoje, a maioria de quem vende infoproduto está no Lucro Presumido. O cálculo é relativamente simples: você paga um percentual sobre o faturamento. PIS e Cofins, algo em torno de 3,65%. ISS, dependendo do município, de 2% a 5%. Conta direta.
O novo imposto funciona de um jeito completamente diferente. Ele é não-cumulativo, com um sistema de crédito e débito. E aqui tem um detalhe que a maioria dos vídeos explica errado.
O crédito não vem de você pagar o imposto. O crédito vem de quem vendeu para você.
Quando você compra de um fornecedor e esse fornecedor destaca o imposto na nota e o recolhe, esse valor vira um crédito para você abater depois. Quando você vende, gera crédito para quem comprou de você. No fechamento do mês, você paga o imposto sobre a diferença entre crédito e débito.
Parece bom? Para indústria e comércio é ótimo — eles compram muito de fornecedores que emitem nota com imposto destacado, acumulam crédito e reduzem a base de cálculo.
Agora pensa no seu negócio de infoproduto. Quais são seus maiores custos? Meta Ads e pessoal — equipe, pró-labore, comissões.
E aqui está o problema:
- Funcionário CLT não emite nota, não gera crédito
- Pró-labore não gera crédito tributário
- Comissão paga a pessoa física não gera crédito
Como um dos seus maiores custos é gente, e gente não gera crédito, você vai pagar imposto sobre uma base muito maior do que a indústria pagaria com o mesmo faturamento.
A imagem que ajuda a entender: pensa no imposto como uma esponja. A indústria é a esponja cheia de furos — entra muito crédito, absorve, e no fim solta pouco imposto. Seu negócio digital é uma esponja quase sem furo — entra pouco crédito, e você acaba pagando muito mais.
É por isso que a mesma alíquota machuca muito mais o prestador de serviço digital do que uma indústria.
O que te dá crédito: tráfego pago, plataformas, softwares, aluguel, serviços prestados por outras empresas ou PJs que emitem nota com imposto destacado.
O que não te dá crédito: justamente o maior custo — pessoal CLT.
Simples Nacional — Muda Alguma Coisa?
Boa notícia: o Simples continua existindo e você não é obrigado a sair dele por causa da reforma tributária.
Se você vende direto para o consumidor final — pessoa física —, continuar no Simples pagando tudo na guia DAS pode continuar sendo a melhor alternativa. Por quê? Porque seu cliente final pessoa física não usa crédito tributário. Para ele, tanto faz se você está no Simples ou no Lucro Presumido. Se o Simples for mais barato para você, fica no Simples.
O cenário muda se você vende para empresas — o famoso B2B. Aí a empresa que compra de você vai querer aquela nota que gera crédito tributário. E o Simples Nacional, tradicionalmente, gera pouco ou nenhum crédito para o cliente final. Isso pode te deixar menos competitivo frente a um concorrente que oferece crédito cheio.
Para resolver isso, a reforma criou o Simples Híbrido: você continua no Simples para a parte dos impostos internos, mas recolhe IBS e CBS por fora para poder gerar crédito cheio para o cliente empresa.
Parece a solução perfeita — mas precisa de cuidado. Na maioria dos casos de quem vende serviço, o custo desse recolhimento extra sobe mais do que o crédito que gera para o cliente. Essa conta não se faz no achismo. Ela exige simulação com os números reais do seu negócio.
E tem um prazo importante aqui: a opção pelo Simples Híbrido precisa ser tomada até setembro de 2026 para valer em 2027. Não é para daqui a cinco anos — é para esse setembro.
A Educação tem Desconto — Mas Não Cai no Seu Colo Automaticamente
Você provavelmente já ouviu que serviços de educação têm redução de 60% no novo imposto. Tem — mas não funciona do jeito que a maioria pensa.
Esse desconto vale para educação formal: escola, faculdade e ensino técnico. Curso livre, mentoria solta, comunidade paga do jeito que a maioria vende hoje — não entra nessa categoria. Paga a alíquota cheia.
Mas aqui fica interessante. A própria lei inclui a pós-graduação dentro do ensino superior com direito ao desconto. Isso quer dizer que existe um caminho: se o seu conteúdo for estruturado da forma certa, formalizado como uma pós-graduação reconhecida com chancela do MEC, você pode passar a ter direito à redução de 60% no imposto.
Isso não serve para todo mundo e não é simples de fazer. Mas para quem tem volume, conteúdo com profundidade real e quer construir algo duradouro, pode ser a diferença entre pagar o imposto cheio ou pagar 60% a menos.
O aviso importante: não saia transformando tudo em e-book ou pós-graduação de fachada só para fugir de imposto sem a estrutura adequada. Isso pode trazer uma multa gigantesca. O caminho certo é a estrutura de verdade, feita com orientação jurídica e tributária adequada.
A Boa Notícia: Você Tem Tempo
A reforma tributária não acontece de uma vez. Ela tem uma transição longa.
2026 é praticamente um ano de teste — alíquotas simbólicas, ninguém sentiu no bolso ainda. Em 2027 começa a valer a parte federal. O sistema só fica completo em 2033.
Você tem tempo para entender, simular, ajustar preços e estrutura com calma — antes do impacto chegar cheio. Quem se mexe agora chega organizado. Quem deixa para última hora corre o risco de ser pego de calça.
O Que Fazer Hoje — Mesmo com a Alíquota Ainda no Ar
1. Simule com contador e advogado Pegue o seu faturamento e seus custos. Compare quanto você paga hoje com os cenários da reforma. Mesmo com estimativa, isso já te dá a noção do tamanho do problema.
2. Mapeie sua estrutura de custos Quanto do que você gasta é pessoal CLT — que não gera crédito? Quanto é insumo com nota — que credita? Essa proporção vai definir o tamanho da sua dor e que tipo de estratégia faz mais sentido.
3. Revise o seu regime tributário Simples, Lucro Presumido, Simples Híbrido, formalização como educação — não existe resposta única. Existe a sua conta e o seu modelo de cliente. Só com os números na mesa você consegue saber o que compensa.
4. Acompanhe o que ainda está sendo definido Vão sair números, regras, detalhes. Esse vídeo é o primeiro de uma série — quando a alíquota for definida e as regras finais saírem, o conteúdo vai ser atualizado com o que mudou e o que você pode fazer.
O Resumo Sem Drama
A alíquota que todo mundo cita ainda não existe oficialmente — é estimativa, e nem o governo quis cravar o número. A mudança que realmente importa para você não é o tamanho do percentual, é a lógica de crédito e débito — e como o seu negócio digital, com custo concentrado em pessoal, tende a gerar pouco crédito e pagar mais. O desconto da educação existe, mas não cai no seu colo automaticamente — precisa de estrutura real para ser acessado. E você tem tempo para se preparar, desde que comece agora.
A pergunta que fica: você quer descobrir o tamanho dessa conta com calma agora — ou só quando ela chegar e bater na porta?
Marcomim Advocacia Empresarial — Direito Empresarial estratégico para negócios digitais em crescimento.







